PONTOS MISTURADOS

Primeiro: obter e ter. São sinônimos?


  • Por
  • 10/07/2018 - 09h05

Não, ou melhor, nem sempre. Obter significa alcançar o que se deseja. Significa também conseguir, ganhar, granjear... Ter significa ter a posse de. Significa também possuir, sentir, experimentar, sofrer, padecer... Ter pode ser usado com sentido positivo e negativo. Obter só deve ser usado com sentido positivo. Eis um exemplo correto: O time obteve três vitórias no campeonato. Um período assim – o time obteve três vitórias e cinco derrotas – deve ser evitado em português, pois a segunda parte possui sentido negativo – cinco derrotas. Mais um período correto: O time obteve cinco vitórias no campeonato. Assim, nos casos negativos no todo do período ou numa parte dele, use-se ter. O time teve três derrotas no campeonato. O time teve três vitórias e cinco derrotas. A empresa teve prejuízo no semestre passado.
Segundo: ficar fora de mim. Existe em português? Existe. Os pronomes pessoais oblíquos e retos combinam normalmente com o sujeito. Assim é correto [gramatical, nível culto] falar e escrever fiquei fora de mim, ficaste fora de ti, ficou fora de si, ficamos fora de nós, ficastes fora de vós e ficaram fora de si. O povo brasileiro às vezes fica fora de si com o governo federal que ainda se mantém no poder. Todos nós, não raras vezes, ficamos fora de nós com um governo corrupto, podre e ilegítimo. Os brasileiros letrados e informados sabem que forças ocultas sustentam um governo desses e ficam, muitas vezes e com razão, fora de si, tanto com o governo, quanto com as forças ocultas que o sustentam.
Terceiro: tal e qual. Essa expressão dá às vezes alguma dor de cabeça para quem fala ou escreve. Mas é fácil terminar com essa dor quando se sabe que tal concorda em número com o nome que está à esquerda e que qual concorda em número com o nome que está à direita. Um exemplo: Esse filho é tal qual o pai. Tal concorda com o número singular do nome filho [esquerda] e qual concorda com o número singular do nome pai [direita]. Filho indo ao plural leva tal ao plural; pai indo ao plural leva qual ao plural. Exemplo: Os filhos são tais quais os pais. Tal fica no plural com filho no plural, e qual fica no singular com pai no singular. Exemplo: Os filhos são tais qual o pai. Invertendo-se o exemplo, ou seja, filho no singular e pais no plural, tal concorda com o singular filho, e qual concorda com o plural do nome pais. Exemplo: O filho é tal quais os pais. E mais um exemplo: Esses netos são tais quais os avós.
Quarto: quantia e quantidade. Sinônimos? Sim, em tese, em termos de muito ou de muitos, de bastante ou de bastantes. Modernamente, quantia só se aplica a montante de dinheiro. Há brasileiros que ganharam grande quantia na corrupção. Alguns exemplos? Cunha, Neves, Sarney, Collor, Temer, Padilha... E quando se usa quantidade? Usa-se, modernamente, em todos os demais casos. Três exemplos: Ele tinha grande quantidade de amigos. Hoje prefira qualidade à quantidade de amigos. Continua havendo grande quantidade de deputados e senadores corruptos imunes e impunes no Brasil? Ainda continua – quantidades e mais quantidades.
Quinto: não há qualquer perigo. Correta a frase verbal? Não. Onde está o erro? Na palavra qualquer. Por quê? Porque depois de palavra negativa não se emprega qualquer, mas nenhum. A frase em tela seria e será correta se for dita ou escrita deste modo: Não há nenhum perigo. Mais dois exemplos: Ninguém lhe faz nenhum favor. Nunca armou nenhuma confusão. Palavras negativas presentes nos exemplos acima: não, ninguém, nunca.
Assim, convém ainda dizer que qualquer é pronome indefinido e que pode ser pronome indefinido substantivo quando desacompanha substantivo – qualquer de seus colegas fala sobre isso – e que pode ser também pronome indefinido adjetivo quando acompanha substantivo – qualquer deputado corrupto sabe isto e disto: corrupção dá riquezas e poderes. Mas de que valem as riquezas ilícitas? Aqueles que as têm não ficam ilícitos? E ricos ilícitos não são tais quais riquezas ilícitas? Pontos interrogativos fazem pensar, polemizar. Não?

PUBLICIDADE
').insertAfter(ps.get(i - 2)); }