PONTOS MISTURADOS

Adjetivos


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  • 12/09/2018 - 10h45

Hoje a fala é acerca da posição do adjetivo nas expressões e nas frases faladas e escritas. Conceitua-se o adjetivo como sendo uma palavra que serve para dar qualidade, uma ou mais, ao substantivo. Ora, se o adjetivo consegue dar qualidade ao substantivo, a uma parte, consegue dá-la também à frase inteira, ao todo.
Alguém ao falar ou ao escrever “Santo Ângelo acolhe imigrantes” fala ou escreve uma frase sem adjetivo. Pois imigrantes, no caso da frase, é substantivo. Poderia ele acrescer um ou mais adjetivo ao substantivo? Poderia. Muitos, dezenas, tantos quantos necessários para comunicar o que quisesse comunicar. Poderia usar, por exemplo, entre outros mais, estes adjetivos: venezuelanos, haitianos. Ou estes: desempregados, empregados, estudados, poliglotas, médicos, camelôs, trabalhadores, negros, educados, simpáticos.
Todas as línguas do mundo adotam a mesma posição do adjetivo qualificativo? Não. A língua inglesa e a língua alemã, por exemplo, adotam o adjetivo só antes do substantivo. E a língua portuguesa e a língua espanhola admitem duas posições do adjetivo, antes ou depois do substantivo. Essa dupla liberdade de posicionar o adjetivo dá a quem fala e escreve riquíssimas possibilidades de expressão e de semântica [significado]. Vejam-se estas duas frases:
1. O rapaz pobre necessita de fazer economias.
2. O pobre rapaz ficou reprovado no exame da OAB.
Posto isso, ninguém, por menos experiente que seja na língua portuguesa, hesita sobre o significado do adjetivo “pobre”‘ colocado na frase 1. O adjetivo “pobre” nessa frase está empregado no seu verdadeiro sentido, ou seja, expressa a qualidade do rapaz, ou seja, que o rapaz é um rapaz sem recursos financeiros. Já na frase 2 o adjetivo entra em outra esfera. Ali o adjetivo está empregado com significado diferente, pois, na verdade, o “pobre rapaz” pode ser agora um rapaz imensamente rico, cheio de dinheiro, e tanto o adjetivo quanto a frase toda revelam sentimento, compaixão, pena, dó, queixume, lamento, tristeza...
A regra de estilo português quanto ao uso do adjetivo na frase é esta: quando o adjetivo está colocado depois do substantivo, tende a conservar o valor próprio, objetivo, intelectual; quando colocado antes, tende a perder o próprio valor e a adquirir outro sentido, um sentido afetivo, emocional, subjetivo. Explicando de outra maneira sinonímica, diz-se que o adjetivo posto depois do substantivo tem sentido denotativo e posto antes tem sentido conotativo. Denotativo é sentido real. Conotativo é sentido figurado. Sentido real [denotativo] é monossêmico, ou seja, tem um só sentido, aquele e só aquele e ponto final. Sentido figurado [conotativo] é polissêmico, apresenta um plural de sentidos, pode ter este ou aquele significado, podem ter estes e mais outros significados, em síntese, podem ter reticências ou etc..
Vale este reforço na posição do adjetivo depois e antes do substantivo: uma rapariga bela e uma bela rapariga. O sentido do adjetivo “bela” na expressão “uma rapariga bela” é diferente do sentido do adjetivo “bela” na expressão “uma bela rapariga”. Nem sempre “uma rapariga bela” pode ser “uma bela rapariga”. “Uma rapariga bela” se distingue pela beleza física, e “uma bela rapariga” se distingue pela beleza moral, pelas virtudes.
Assim, no arremate, escritores e poetas de língua portuguesa utilizam-se dos adjetivos denotativos e conotativos nos seus escritos. Entre eles, Machado de Assis. Machado de Assis aproveitou bem a duplicidade de sentidos dos adjetivos portugueses e jogou finamente com as posições deles nas frases

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