MARIA CECÍLIA KOTHER

Relacionamentos...


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  • 09/08/2018 - 16h51

Todos os seres humanos, enquanto pessoas na imagem perceptível e, talvez, até desejada que rompe as fronteiras dos sentimentos e da lógica, criam uma visão desejada de manterem-se ilusoriamente acompanhados além dos momentos em que se defrontam com a vida real, por lhes parecerem necessários. O real e o imaginário têm linhas tênues que se percebem, acalmam-se e convivem e interagem entre si como se um não fosse o contrário do outro. Nesses limites, o peso do descobrir ou dar-se conta do serem verdadeiras as amizades escolhidas pode vir a ser desnudado como não tão verdadeiro como o almejado. Não é raro, mas talvez difícil, pois trará sempre consequências imprevistas a serem enfrentadas. Assumir e ver claro e de perto as circunstâncias que o falso, obrigatoriamente, contém e irá gerar, poderá criar condições que obriguem o outro a sair da sua área de conforto por ele estabelecida.
Nessa complexa e impositiva nova posição, a mudança de campo comportamental já assumido, usufruído e gostoso de manter nos seus relacionamentos - o status quo desse antes e sua continuidade -, ao impor a tomada de redefinições de outras maneiras que oscilam entre o “ser” e o “não ser”, entre o “agir” e o “não agir” ou ao ver claro a realidade e, talvez, até impor-se a acreditar, é onde reside o difícil. Por que difícil? Porque, além desse mudar que gera vácuos e incertezas, tem consigo também a implicação do seu próprio “rever-se” e das posições novas a tomar no seu perceptível do ser real e ser verdadeiro do agora.
O mundo interno do medo, da comodidade ou das dúvidas e do vale à pena, tão parceiros dessa nova situação agora difícil, obriga a romper, por sua vez, entre o querer e o não querer que conduz ao fazer escolhas e tomar decisões. O circuito interno na qual essa cadeia interna se instalará para sair da zona de conforto obriga o refazer de outros circuitos relacionais seus - e de consequentes novos choques -, no decorrer de sua instalação.
O conviver sempre é necessário e vital à harmonia, à equidade, à continuidade e a outros inúmeros benefícios à vida que se produzem nos contatos relacionais entre as pessoas. O grande definidor da vida, e de vida, dentro dos limites da própria qualidade da existência de cada um, está atrelado fortemente aos seus relacionamentos. São eles, os relacionamentos, embora naturais e nascedouros de filiação familiar, os primeiros limites definidores e inspiradores da forma relacional na vida de cada um. Essa linha relacional tem uma exclusividade determinante, pois, embora se processe num mesmo contexto familiar, faz com que nasçam e imprimam os relacionamentos entre as pessoas. É, portanto, numa ótica própria e consequente desse individual aprendizado sentimental, emotivo e estruturador, que o viver relacional de cada um vem a se expressar total e objetivamente de forma diferente.
São incompreensíveis, mas verdadeiras, as diferenças, a excentricidade, a capacidade e as formas de comportamentos e atitudes dos relacionamentos gerados no mesmo contexto das células familiares das pessoas. Irmãos e irmãs, do mesmo pai e da mesma mãe, são totalmente diferentes, e assim atuam pela vida. O que se pode concluir com isso? A verdade que por si só se impõe é a de que os relacionamentos são diferentes, mas sempre importantes e necessários. Numa analogia, pode-se dizer que os relacionamentos seriam como água de uma mesma fonte na qual todos precisam beber, embora as sedes sejam diferentes, o que leva também a uma busca de quantidade e volume diversos, mas sempre apreciados de forma diferente pelos usuários da fonte.
O que se pode buscar na fonte dos relacionamentos? A água é fluída e alimenta o corpo de quem a bebe, em todas as suas células. Assim como a água, os relacionamentos que buscamos na fonte da vida fluem emocionalmente e penetram nos sentimentos, na afetividade e no desempenho das atitudes e das ações. Os relacionamentos são vitais. Eles têm uma importância motivadora no dia a dia, pois alimentam o conviver que rompe silêncios e diferenças e produzem aprendizado e conhecimento. É mais do que um instrumento de acolhimento e companhia, nos mais variados tons do dia a dia que circulam entre variados polos e circunstâncias. Na vida, ninguém é ou pode se transformar numa ilha, por sermos gerados e criados no círculo e na esfera de limites dos relacionamentos. Relacionar-se traz consigo, também, uma grande dose para o autoconhecimento.

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