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Com sacos plásticos e respirador manual por seis horas, pediatra consegue estabilizar recém-nascida


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  • 28/08/2018 - 08h45
Alexandra: “A sensação é de missão cumprida, de felicidade por poder realmente ter ajudado” (Arquivo Pessoal)

Na segunda, 20, de madrugada a pediatra Alexandra Bastos Coelho foi chamada ao Hospital de Caridade de Crissiumal (próximo a Três Passos) para auxiliar em um parto onde a gestante estava com apenas 27 semanas.
“A obstetra estava esperando eu chegar para romper a bolsa , então depois que eu organizei tudo foi rota a bolsa a mãe fez a última força e nasceu o bebê”, relata a pediatra.
A menina nasceu com apenas 1.010kg, e permaneceu no Hospital com poucos recursos por seis horas até chegar uma UTI Móvel e ela ser levada a UTI Neonatal de Santo Ângelo.
Ela nasceu às 6h16min, a ambulância chegou às 12 horas e às 12h15min saiu do Hospital.
Enfrentando diversos problemas, inclusive a falta de recursos, usando o ambu (onde é realizada a ventilação pulmonar por meio de movimentação manual) e aquecendo a pequena com sacos plásticos transparentes, a médica conseguiu estabilizar a menina para que fosse levada de forma estável até o Hospital Santo Ângelo.
Em seu relato emocionante ela afirma: “Bom, a sensação depois era de missão cumprida, de felicidade por poder ter realmente ajudado, porque o que todo mundo esperava é que ela fosse a óbito ou ficasse muito mal, mas eu sou muito teimosa para deixar isso acontecer !”, diz a pediatra Alexandra.

Seis horas de espera e apreensão

A pediatra ressaltou que todos os procedimentos que fez são passos seguidos conforme o protocolo de reanimação neonatal da sociedade brasileira de 2016.
Alexandra diz que: “O recém-nascido prematuro tem pouca gordura e a pele muito fina, o que faz com que ele perca muito calor. Quando o bebê nasceu , o cordão foi clampeado , foi levado ao berço aquecido, seco e colocado envolto em saco plástico e touca porque pela moleira também se perde muito calor”, explica.
Ao nascer a pequena respirou sozinha, mas a médica Alexandra fala que ela não conseguia manter um padrão respiratório adequado pela imaturidade pulmonar da caixa torácica. “Então foi realizada a intubação imediatamente para evitar que ficasse sem oxigenação. Não foi usado surfactante na sala de parto porque não tínhamos”, diz.
No momento em que a menina foi intubada foi utilizado o ambu (permite realizar a ventilação pulmonar por meio de movimentação manual), a 21 % que é a quantidade de oxigênio do ar ambiente, mas Alexandra diz que a menina não saturou bem. “Então aí coloquei oxigênio no ambu para fazer a ventilação VPP (Ventilação com Pressão Positiva) com oxigênio, então a saturação começou a subir. Pegamos acesso e colocamos na incubadora”, afirma Alexandra.
A menina não podia ser sedada, porque segundo a pediatra ela não tinha monitor e a bomba de infusão (Aparelho médico-hospitalar utilizado para perfundir líquidos tais como fármacos ou nutrientes, com controle de fluxo e volume nas vias venosa, arterial ou esofágica) as vezes funciona e as vezes não.
“Minha maior preocupação nesse momento era que ninguém fosse fazer pneumotórax ( fazer pressão demais no ambu quando apertasse, porque muito ocorre isso. Então eu ficava do lado dizendo aperta, solta, solta que é o ritmo preconizado para fazer a ventilação e olhando sempre a pressão das meninas . E dizendo por favor não percam o tubo ( deslocar ou coisa assim )”, relata e esse cuidado ocorreu durante as seis horas que a menina permaneceu no Hospital.
A médica explica que como não tinha ventilador para colocar ela, o risco de pneumotórax era muito grande (que é causada pela entrada de ar dentro da pleura, a membrana que recobre os pulmões). “Porque o certo é fazer VPP e logo já colocar no respirador , então eu fiquei todo o tempo cuidando a pressão e o ritmo com que a pressão era feita no ambu”, relata.
Nota da Redação: Surfactante é um medicamento, imita uma substância natural do corpo, que ajuda a respiração do bebê até que ele consiga produzir sozinho. Este medicamento pode ser administrado já na primeira hora após o nascimento do bebê.

Cadastro na Central de Leitos

A médica explica que a bebê tinha sido cadastrada na central de leitos do Estado para uma vaga em uma UTI Neonatal, então surgiu uma vaga em Estrela. “A enfermeira me perguntou se podia ser, eu disse que sim porque não importava a distância, eu precisava colocar ela dentro de uma UTI móvel para levar para UTI Neonatal. Começamos a buscar UTI móveis, a do Estado nem tinha previsão de quando poderia vir , então iniciamos ligar para as particulares a de Cruz Alta estava fazendo remoção , a de Ijuí estava sem médico , a de Carazinho acho que não atendeu , nisso surgiu a vaga de santo Ângelo”, afirma.
Mas continuava a busca por uma UTI Móvel para fazer o transporte da recém-nascida. “Eu chamei os pais conversei, expliquei, disse que as chances dela ali eram de 5% , que eu estava fazendo tudo que estava ao meu alcance e que nossa luta agora era contra o tempo de encontrar uma UTI móvel com equipe montada, e que a Secretaria de Saúde pagasse porque todas estavam em torno de 10 mil reais”, disse a médica.

Problema

Nesse período que estava sendo feita a busca de uma UTI Móvel, a médica conta que a bebê começou a ficar cianótico (coloração azulada, geralmente devida à falta de oxigénio no sangue).“Olhei para o meu oxímetro, a saturação não estava tão boa, porque o único que eu tinha para me basear era o meu oxímetro neonatal que eu uso para fazer os testes do coraçãozinho. Então comecei a revisar tudo e com certeza tinha perdido aquele tudo , o que levou a nova intubação de forma muito rápida para que não houvesse falta de oxigenação” explica em um relato minucioso”.
Foi feito então um raio x na criança, porém não ficou bom devido ao aparelho portátil melhor não ter passado na porta. A médica diz que o que passou era bem antigo. “Então eu mesma fiz um HGT para ver a glicose, estava 346, provavelmente aumentou pelo stress metabólico, infecção , acidose respiratória (diminuição anormal do pH sanguíneo devido à ventilação diminuída dos alvéolos pulmonares), deveria ter membrana hialina junto”, relata a pediatra . A membrana hialina funciona como uma barreira mecânica: impede as trocas normais de oxigênio e gás carbônico e dificulta a distensão dos alvéolos, que ficam vazios.
A médica então conseguiu diminuir a hiperglicemia para 223 e fez uma dose de antibiótico. “Na UTI provavelmente seria feito, então iniciamos uma dose de ataque. E ali ficamos cuidando, as vezes o oxímetro acusava uma saturação mais baixa um pouco, eu ia ver tudo, daí o tubo estava mais para baixo daí eu puxava para cima e melhorava ( aconteceu algumas vezes ) , até que acabou ocorrendo a extubação de forma acidental então intubei pela terceira vez e pedi pelo amor de Deus não percam esse tudo”, conta a médica.

Transporte

A Secretaria de Saúde de Crissiumal custeou pagamento do transporte em uma UTI Móvel.
“Conseguimos a UTI Móvel de Três de Maio, que veio com o médico anestesista , mas tinham me dito que estava toda equipada ( mas não tinham incubadora, nem respirador) então colocamos bastante cobertores e eles têm lençóis térmicos ( diz que estão acostumados a fazer transporte assim ). Não tínhamos incubadora de transporte para emprestar , e foi também no ambu até lá , expliquei bem certinho para o anestesista como fazer a pressão porque ela tinha tido uma diminuída da saturação, aí estabilizarmos na hora de colocar na ambulância. E assim foi, ela saiu daqui após seis horas com frequência cardíaca normal, frequência respiratória normal, boa saturação 95%, boa perfusão . Pelo que sei chegou bem em Santo Ângelo . E as notícias que tenho é que ela está bem dentro do quadro de 27 semanas, um pouco disso porque conseguimos que ela se mantivesse bem até chegar lá”, conta emocionada Alexandra.

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