CRÔNICAS DA VIDA

Valentia


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  • 09/08/2018 - 16h53

Em conversa com familiares soube da história de um grupo de “valentões” que estiveram no Rincão dos Santana, interior de São Luiz Gonzaga. Os jovens foram para uma pescaria no rio Piratini, na propriedade dos Moraes. Os três rapazes, todos na faixa etária dos 17 anos de idade, tinham fama de brigões na cidade onde viviam. 

Ao chegarem ao local, os valentões adentraram na mata para montar a barraca debaixo de uma guajuvira. Depois, o grupo recolheu lenha. Era fim de tarde; logo escureceu; os jovens acenderam a fogueira. Em seguida iniciaram os preparativos para a pescaria à noite. Foram separadas as linhas de mão e os espinhéis para o dourado, a piava e o pintado– peixes comuns no rio Piratini.

Antes da pescaria, os rapazes, em volta da fogueira, assaram pedaços de carne para comer com pães. Nesse momento, os proprietários da terra chegaram ao acampamento. Vieram conversar com os jovens. Juremir, um dos pescadores, contou com orgulho sobre a sua macheza e das proezas na cidade. Os irmãos Alcênio e Décio, em silêncio, ouviam atentamente. Depois foi a vez dos moradores do Rincão dos Santana contar suas estórias. Alcênio trocou um rápido olhar com Décio e em seguida falou sobre os animais peçonhentos e feras que habitavam a mata. Também relatou o aparecimento de uma onça pintada que estava amedrontando moradores da localidade. 

No começo, os valentões não acreditaram. Como onça no Rincão dos Santana? De que jeito? Aos poucos, porém, Alcênio, com seu talento em contar estórias, convenceu os pescadores. Os semblantes dos valentões já mostravam sinais de perplexidade. O narrador explicou que a onça tinha atacado vários animais em propriedades nas redondezas. Décio para colocar mais pavor no grupo contou que até um velho caboclo, que vivia próximo ao rio Piratini, tinha desaparecido e a onça era suspeita de ter devorado o homem. Para tranquilizar os rapazes, os irmãos Moraes explicaram que a única forma de afastar onça do acampamento era manter a fogueira acesa. Com fogo, estariam seguros.

O grupo em volta da fogueira comeu carne assada com pão. Após muitas estórias de caçadas e assombrações, os visitantes despediram-se do grupo e seguiram rumo a uma estreita trilha até desaparecer no meio da mata. Os pescadores já tinham separado as iscas e os anzóis. Até haviam esquecido as estórias assombrosas dos irmãos Moraes e aos risos se preparavam para a aventura. Foi quando ouviram rosnados provenientes de um canto da mata a uma distância de uns 40 metros do acampamento. 

Juremir, o líder dos valentões, pegou seu pequeno canivete de preparar iscas e gritou:

- Que venha sua besta! Vou fazer tapete do teu couro!

Barulhos nos galhos e folhas secas da mata prosseguiram e os rosnados cada vez mais altos. O medo tomou conta dos rapazes. Um deles lembrou que mantendo a fogueira acesa o animal não atacaria. Os pescadores queimaram toda a lenha que havia. Depois queimaram as embalagens, os colchões, e por fim a barraca. O fogo foi se apagando. Apavorados e aos gritos os três sumiram no meio da mata, enquanto os irmãos Moraes, escondidos atrás de uma grande pedra, riam. Tudo porque eram eles que imitaram rosnados de uma onça para assustar o grupo. 

Ao amanhecer, os irmãos Moraes, preocupados com o desdobramento daquele fato, foram até o local do acampamento para ver o que tinha acontecido. Nada dos valentões e apenas o silêncio. De repente, os dois ouviram um gemido baixinho. Olharam para o alto e avistaram os três rapazes que passaram à noite trepados numa enorme guaviroveira. 

 

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