CRÔNICAS DA VIDA

"Tem boi na linha"


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  • 13/03/2018 - 15h00

- Tem boi na linha! A expressão é antiga. Teria surgido na construção da primeira ferrovia no Brasil, a Estrada de Ferro Mauá que ligava o Rio de Janeiro à Raiz da Serra, em Petrópolis. O local não era cercado e o gado da região passeava livremente sobre os trilhos, causando transtornos e susto aos maquinistas. Seguidamente o operador do trem gritava “Tem boi na linha!” - alertando a presença de bovinos nos trilhos e a necessidade de interrupção do percurso.

Essa expressão “tem boi na linha” ganhou projeção e passou a ser adotada popularmente para evidenciar que a comunicação não está clara. Há algo impedindo que a informação venha a ser repassada adequadamente. E quem atua na área sabe que quando a comunicação não funciona o resultado acaba sendo desastroso em qualquer processo de gestão, seja ele público ou privado. Nas corporações, por exemplo, 60% dos problemas advêm da comunicação interna ineficiente que acaba gerando retrabalho, conflitos e desmotivação dos profissionais que fazem parte da rotina de uma empresa.

Ilustro essa questão para retratar o que vem ocorrendo localmente na esfera pública: os ruídos de comunicação interna são evidentes entre secretarias e departamentos. Vejamos o caso das obras e serviços efetuados na semana passada pela Prefeitura de Santo Ângelo e a Corsan. Várias vias foram bloqueadas na área central da cidade em horário de grande movimentação de veículos.  A companhia atuando num ponto e as equipes da prefeitura em outro. A ação resultou numa situação bastante desagradável com engarrafamentos de carros e motoristas estressados no trânsito. Na avenida Venâncio Aires, por exemplo, próximo ao Fórum, caminhões de carga circulavam na contramão (sentido norte/sul), enquanto motoristas em pânico transitavam neste trecho no sentido contrário. Os caminhões quase tocavam as laterais dos automóveis num risco iminente de acidente.

Já em outro ponto, o Departamento Municipal de Trânsito bloqueou dois trechos da rua 3 de Outubro: um entre a Marquês do Herval e a Marechal Floriano e outro entre a Marquês do Herval  e a Antunes Ribas. Nos canteiros centrais teve corte de grama e na pista operação tapa-buracos. Essas ações que poderiam ter o apoio efetivo da comunidade, porque toda melhoria é sempre bem-vinda, se transformaram num quiproquó, gerando conflitos no trânsito e consequentemente desgaste ao poder público. Tudo porque faltou planejamento e comunicação. A Corsan comunicou a secretaria responsável sobre o seu cronograma de obras, mas esta não teria repassado as informações ao departamento.

É compreensível que uma obra possa gerar transtorno. Isso é muitas vezes inevitável. No entanto é preciso minimizar o impacto. E aí entra o papel do planejamento e de uma boa comunicação interna. Infelizmente a observação que fiz deste problema na semana passada foi recebida por alguns, sem qualquer legitimidade para o debate, como uma afronta política. Em momento algum levei o assunto para a esfera política. Apenas alertei da necessidade de planejamento das ações.

É difícil entender que mesmo em ações como um simples corte de grama, que não necessita de grandes recursos, a execução se torna tão difícil. É preciso corrigir e cabe ao gestor ver onde as coisas estão falhando. Custa a crer que por aqui ainda estejamos vivendo como no século passado em que o maquinista gritava bem alto:

- Tem boi na linha!

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