5 Perguntas: Psicóloga fala sobre o caso Bernardo, e o papel da sociedade em situações semelhantes

 

A psicóloga, Salete Lissarassa, abordou o assunto que chocou os gaúchos essa semana. A morte do menino Bernardo Boldrini, onde os principais suspeitos são o pai e a madrasta. A sociedade questiona como as pessoas que deveriam proteger uma criança são capazes de tamanha crueldade. Segundo a psicóloga, não é possível identificar com antecedência, a pessoa que é capaz desse tipo de ato. Confira a entrevista com Salete Lissarassa:

 

 

1 - Como pode se identificar alguém que tenha condições de cometer um crime contra uma criança?

 

Esta é uma questão muito complexa, superficialmente, não tem como identificar.  O que cabe aqui, é observar a importância da rede de apoio à criança, que pode-se citar a família( pais, avós, tios, padrinhos), a escola (professores, supervisores, orientadores, colegas, pais de colegas), amigos, vizinhos, a rede pública(Conselho Tutelar, Ministério Público e Juizado da Infância e Juventude). Todos somos parte desta rede, tanto de nossos filhos, como de qualquer criança. O que acontece é que muitas pessoas não querem se expor e interferir, acreditam que seja um problema familiar, às vezes até um problema de casal. Não é, é um problema social, todos somos responsáveis. Acredito que no caso do menino Bernardo, a rede falhou.

 

 

2 - Se existem essas características, existe uma maneira de evitar que a situação chegue a esse ponto?

 

Quando se fala em características de um possível agressor, pensa-se em alguém agressivo, severo, dominador, mas nem sempre é assim. Existem agressores, que perante a sociedade, se mostram como uma pessoa agradável, de fácil relacionamento, às vezes até divertidos, mas que em um ambiente restrito, se mostram totalmente diferentes. Então volto a citar a importância da rede de apoio, pois se estivermos atento à criança, ela nos mostrará o que realmente está acontecendo.

 

 

3 - Existe algum fenômeno psicológico que a psicologia clínica não consegue prestar assistência?

 

Acredito que em alguns casos, é difícil se prestar assistência psicológica, por que o desejo de cura de uma doença, ou o desejo de mudança de algum tipo de comportamento, tem de partir do próprio paciente. Quando uma pessoa se permite agredir um filho, um ser que deveria proteger, ele está quebrando todas as regras, algo dentro de si está se rompendo. Ninguém decide matar um filho de um dia para outro, na verdade ele está matando aos pouquinhos, com gritos, agressões, pressão, desapego, até que em certo momento ele comete o ato em si. Por isso, a importância de todos na proteção e formação dessa criança, todos devem estar atentos aos sinais que a criança demonstra, quando observar algo diferente, não vire as costas, pois, pode ser que este seja um próximo “Bernardo”.

 

 

4 - Quais os principais problemas que alguém da área da psicologia identifica nas pessoas que procuram atendimento?

 

Em alguns casos observa-se um triângulo amoroso, um casal, que vindo de outras relações, possuem filhos que vem a fazer parte desta nova família que está se constituindo. Este novo casal quer esquecer as antigas relações, quer que elas se apaguem de sua memória, ou por frustração de uma relação que não deu certo, por um amor mal resolvido, ou por outro motivo qualquer, e eles não conseguem esquecer, por que este filho, que vem deste casamento passado, está ali, assombrando seu presente e seu futuro. Alguns casais, por medo, ciúmes ou talvez até imaturidade não conseguem manter uma relação saudável com este filho, que lhe trás lembranças amargas de um passado que não quer ir embora.

 

5 - E como o psicólogo identifica se o tratamento está dando resultado?

 

Em atendimento individual ou mesmo de casal, se observa um resultado positivo do tratamento, quando esta família consegue seguir em frente, não esquecendo o passado, mas o aceitando, cada um tem de ter direito à sua individualidade, sua bagagem de vida, sua história. O novo casal tem de fortalecer a relação com este filho(a), enteado(a),  que precisa mais do que nunca de amor, afeto e paz. Aceitar que está criança em algum momento foi desejada, amada, protegida e que ela merece respeito. Aceitar o passado é o primeiro passo para ser feliz no futuro, e pensar que este filho foi em algum momento muito desejado, é respeitar seu passado, é aceitar este novo contexto de família e assim conseguir ter um relacionamento saudável. Não se pode simplesmente por que um casamento acabou, querer que este filho suma, deixe existir, apenas por um capricho, e este desejo deve partir também do novo companheiro(a), que deve estimular e apoiar um bom relacionamento entre o pais biológicos e os filhos, para também ter uma boa relação nesta família.  Uma boa relação com os filhos, é a certeza de um futuro mais tranquilo e saudável.

 

 

Foto: Rogério Sartori/AT

 

 

 

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